Por Ulisses Dayube
Resumo
O canal do parafuso angulado (angled screw channel, ASC) permite reposicionar a emergência do acesso protético sem abandonar a retenção parafusada. Este artigo apresenta revisão narrativa da evidência clínica e laboratorial sobre ASC e descreve a aplicação técnico-digital do Pilar Link Tipo B (TS Link Abutment) nas geometrias aberta e cilíndrica. O tipo aberto admite, segundo documentação do fabricante, canal reto ou angulado em até 25° e requer chave de torque angular com interface hexalobular; o tipo cilíndrico utiliza canal axial e chave hexagonal de 1,2 mm. Ambos utilizam o parafuso EbonyGold, conforme o material técnico analisado. A literatura sobre diferentes sistemas ASC indica resultados clínicos favoráveis em curto e médio prazo, mas demonstra que torque aplicado, desenho do parafuso e da chave, magnitude da angulação, espessura restauradora e fadiga interferem no comportamento mecânico. Não foram identificados estudos comparativos específicos entre as duas geometrias comerciais do Pilar Link Tipo B. A seleção deve combinar emergência planejada, volume restaurador, área adesiva, demanda oclusal, acesso da chave e respeito à biblioteca CAD/CAM e às instruções do fabricante.
Palavras-chave: implantes dentários; prótese sobre implante; canal do parafuso angulado; base de titânio; CAD-CAM; exocad; interface hexalobular.
1. Introdução
A restauração implantossuportada parafusada combina retratabilidade, manutenção facilitada e ausência de cimento subgengival. Entretanto, a trajetória do implante pode posicionar o acesso em vestibular, borda incisal ou cúspide funcional, comprometendo estética, anatomia, oclusão e espessura do material. O ASC desloca virtualmente a saída do canal, mantendo a conexão no eixo do implante e alterando o trajeto de inserção da chave e a geometria interna do acesso [1-4].
No sistema analisado, a geometria aberta é compatível com ASC; a cilíndrica mantém canal axial e oferece corpo mais contínuo e maior superfície potencial de união adesiva. A decisão deve ocorrer antes do desenho definitivo e ser coerente com biblioteca, parafuso, chave e método de fabricação.

2. Método e nível de evidência
Foi realizada revisão narrativa focalizada em publicações indexadas no PubMed/PMC e em documentos técnicos oficiais disponíveis até agosto de 2026. Foram empregados os termos angled screw channel, angulated screw channel, hexalobular driver, dynamic abutment, reverse torque, implant-supported restoration e exocad. Priorizaram-se revisões sistemáticas, estudos clínicos, estudos de fadiga/torque e documentação oficial do software.
Escopo da evidência. Os artigos citados avaliam o conceito ASC e diferentes sistemas comerciais. Eles não validam automaticamente o Pilar Link Tipo B. Compatibilidade, código da biblioteca e limite de 25° derivam da documentação técnica da Osstem.
3. Tipo aberto versus cilíndrico
| Critério | Tipo aberto | Tipo cilíndrico |
| Canal | Reto ou ASC; até 25° segundo Product Update | Reto/axial |
| Biblioteca | Osstem_TS_SBO_LI_ASC; confirmar versão/conexão | Biblioteca específica não-ASC compatível |
| Chave | Torque Angular, interface hexalobular | Hexagonal 1,2 mm |
| Parafuso | EbonyGold | EbonyGold |
| Prioridade | Liberdade da emergência e desenho | Área de união e robustez geométrica |
| Cenário típico | Anterior ou acesso axial desfavorável | Trajetória já favorável; posterior/carga |
| Limitação | Menor volume de base; dependência do ASC | Não corrige emergência desfavorável |


4. EbonyGold e interfaces de chave
As duas geometrias usam o mesmo parafuso EbonyGold conforme o material técnico. A diferença funcional está no instrumento: chave hexagonal de 1,2 mm no tipo cilíndrico e chave angular hexalobular no tipo aberto/ASC. Em sistemas ASC, o formato da interface entre chave e cabeça determina a transmissão de torque fora do eixo, a concentração de tensões e a possibilidade de remoção [5-8].
O revestimento é descrito como nitreto de titânio (TiN). Revestimentos de baixa fricção podem modificar a relação torque–pré-carga; o efeito clínico, porém, depende do conjunto completo, limpeza, reaperto e calibração. Maior pré-carga ou menor afrouxamento não devem ser presumidos apenas pela cor sem ensaio específico do sistema.


5. Evidência científica sobre ASC e chave hexalobular
Rasaie et al. reuniram oito estudos clínicos e sete laboratoriais e encontraram alta sobrevivência e baixa incidência de complicações, mas destacaram heterogeneidade e influência do torque inicial, configuração da chave, desenho do parafuso, sistema do pilar e angulação [1]. O conceito é clinicamente viável, porém os sistemas não são intercambiáveis.
| Estudo | Desenho | Resultado relevante |
| Rasaie et al., 2022 [1] | Revisão sistemática | Resultados clínicos favoráveis; mecânica dependente do conjunto e ângulo. |
| Mulla et al., 2022 [5] | In vitro; 3 sistemas hexalobulares a 25°; 5 milhões de ciclos | Sistema DY atingiu torque-alvo comparável ao axial; outros ficaram abaixo; sobrevida semelhante. |
| Farré-Berga et al., 2020 [6] | In vitro; Ball Head a 0°, 20° e 30° | Viabilidade de torque angulado, dependente da geometria e repetição. |
| Goldberg et al., 2019 [7] | In vitro; 0°, 20°, 28°; 1,2 milhão de ciclos | Torque de remoção e força de falha comparáveis; falhas reforçam cautela. |
| Swamidass et al., 2021 [8] | In vitro; 0° e 20°; 1 milhão de ciclos | Sem diferença global entre ângulos, porém houve diferenças entre sistemas. |
| Anitua et al., 2020 [3] | Coorte retrospectiva split-mouth; até 30° | 100% de sobrevivência; perda óssea marginal baixa, sem diferença por angulação. |
| Rella et al., 2021 [2] | Retrospectivo; restaurações metal-free | Sustenta aplicação clínica com seleção e monitoramento. |
Ponto crítico. Hexalobular não significa desempenho idêntico. Use exclusivamente a chave indicada para o EbonyGold/Pilar Link; não substitua por instrumento semelhante de outro sistema.
6. Vantagens, indicações e contraindicações
6.1 Vantagens do tipo aberto/ASC
- Reposiciona a saída para palatino/lingual ou área oclusal não funcional.
- Mantém retenção parafusada e retratabilidade, evitando cimentação intraoral.
- Permite correção individualizada em direção e magnitude dentro do limite validado.
- Pode preservar estética e espessura vestibular/incisal.
- Favorece manutenção quando há acesso real para a chave angular.
6.2 Vantagens do tipo cilíndrico
- Geometria axial simples e chave convencional de 1,2 mm.
- Maior superfície potencial de união adesiva da mesoestrutura.
- Menor complexidade quando a emergência já é favorável.
- Opção racional em posteriores e maior demanda quando há espaço protético.

| Situação | Conduta | Racional |
| Acesso vestibular/incisal anterior | Tipo aberto + ASC | Reposicionar para palatino sem converter em cimentada. |
| Cúspide funcional/fossa inadequada | ASC se houver espessura e acesso | Preservar anatomia e reduzir interferência. |
| Trajetória central favorável | Canal reto; considerar cilíndrico | Não adicionar complexidade sem benefício. |
| Pouca altura/área adesiva | Avaliar cilíndrico ou outra base | Tipo aberto pode reduzir área de união. |
| Correção necessária >25° | Contraindicado neste componente | Excede a especificação técnica. |
| Biblioteca sem suporte ASC | Não fabricar | Risco de incompatibilidade interna. |
| Chave sem acesso/assentamento | Não indicar nessa direção | Torque insuficiente e manutenção impossível. |
| Parafunção/cantilever/carga elevada | Cautela e controle oclusal | Evidência heterogênea; preservar volume e reduzir alavancas. |
| Espessura insuficiente ao redor do canal | Redesenhar | Risco de fratura do material. |
7. Fluxo digital completo no exocad
Pré-requisito. O ASC só aparece se a licença do DentalCAD e a biblioteca permitirem. Para o tipo aberto, o material indica Osstem_TS_SBO_LI_ASC. Confirme conexão, altura gengival de 1–4 mm, versão da biblioteca e componente físico.

7.1 Cadastro e seleção
- No DentalDB, cadastre a restauração implantossuportada e selecione a indicação sobre Ti-base.
- Importe arcada, antagonista, oclusão e scanbody; confirme a correspondência exata à conexão TS.
- Escolha o Pilar Link Tipo B aberto com suporte ASC. Não selecione o cilíndrico esperando angulá-lo depois.
- Valide altura gengival e espaço protético nos cortes, sem colisão com tecido e sem reduzir espessura.
7.2 Como angulá-lo no desenho
- Avance ao desenho do pilar/mesoestrutura e abra Advanced (Avançado).
- Ative Angulated screw channels. Se não aparecer, interrompa: licença ou biblioteca não suporta ASC.
- Modo Clickable: clique na anatomia, pré-operatório ou enceramento no ponto de emergência desejado. CTRL + clique redefine o ângulo manual.
- Modo Draggable: arraste a seta. CTRL+SHIFT restringe ao plano atual; CTRL+X ao plano do análogo; CTRL+I aproxima ao inteiro; CTRL+SHIFT+I ajusta em intervalos de 1°.
- Mantenha o valor dentro de 25°. O limite visual do software não substitui o limite físico do componente.
- Gire a vista e confirme emergência, espessura e trajetória clínica livre para a chave.
- Confira Screw Distance, espessura mínima e parâmetros de ferramenta/compensação CAM.
- Finalize anatomia, contatos e oclusão; exporte somente após validar componente e assentamento virtual.

7.3 Checklist antes do CAM
- Biblioteca, conexão e altura gengival coincidem com a peça física.
- Angulação ≤25° e saída em região segura.
- Espessura mínima preservada em 360° ao redor do canal.
- Sem colisão da chave com dentes, antagonista ou tecido.
- Canal fora do contato proximal crítico e da cúspide funcional.
- Ferramentas e compensações CAM compatíveis.
- Ordem de produção identifica Open Type + ASC + chave hexalobular.
8. Protocolo laboratorial e clínico
8.1 Fabricação e união
- Fabricar o canal com fluxo CAD/CAM validado; não criar angulação por desgaste manual improvisado.
- Provar a mesoestrutura e confirmar assentamento, passividade e passagem da chave.
- Tratar Ti-base e restauração conforme material, primer/cimento e IFUs; proteger conexão, rosca e assento.
- Cimentar extraoralmente em dispositivo de posicionamento, remover excessos e inspecionar sob magnificação.
- Não reduzir espessura estrutural para compensar a base aberta.
8.2 Instalação
- Confirmar assentamento clínica e radiograficamente antes do torque.
- No aberto/ASC, garantir engajamento completo da chave hexalobular no trajeto projetado; no cilíndrico, usar chave 1,2 mm.
- Aplicar o torque da IFU vigente. A imagem geral do Angled Torque Driver menciona máximo de 30 Ncm, mas isso não substitui a instrução específica do conjunto Pilar Link/EbonyGold.
- Realizar reaperto apenas se indicado pelo fabricante.
- Selar o canal e ajustar contatos/oclusão sem sobrecarregar o acesso.
- Registrar componente, lote, torque, chave, angulação e arquivo CAD.

Fonte: ilustração extraída do PDF Pilar Link, Osstem.


Fonte: ilustração extraída do PDF Pilar Link, Osstem.
9. Falhas potenciais e prevenção
| Falha | Causa provável | Prevenção |
| Torque abaixo do planejado | Engajamento parcial, ângulo elevado, chave incompatível | Chave original, acesso livre e torquímetro calibrado. |
| Dano à cabeça | Instrumento errado, repetição, carga lateral | Não intercambiar drivers; inspecionar/substituir. |
| Afrouxamento | Pré-carga baixa, carga excêntrica, assentamento ruim | Assentamento, torque conforme IFU, oclusão e controle. |
| Fratura restauradora | Parede fina, área funcional, transição abrupta | Controle de espessura, cantos arredondados e reposicionamento. |
| Descimentação | Área insuficiente, contaminação, tratamento inadequado | Escolha da geometria e protocolo adesivo validado. |
| Manutenção impossível | Trajeto bloqueado por dente/tecido | Simular volume real da chave no CAD. |
| Peça não assenta | Biblioteca errada, cimento, erro CAM | Rastreabilidade, magnificação e radiografia. |
10. Discussão
O benefício do tipo aberto é resolver uma limitação espacial. Quando a trajetória axial já é favorável, a angulação não acrescenta benefício e introduz variáveis mecânicas e operacionais. Nessa situação, a geometria cilíndrica pode ser preferível por oferecer corpo contínuo e maior superfície potencial de cimentação. Essa comparação é geométrica e técnica, não resultado de ensaio direto entre os dois Pilares Link B.
A literatura demonstra que a pergunta correta não é apenas se ASC funciona, mas qual conjunto ASC, em qual ângulo, torque e carga. Mulla et al. encontraram diferenças de entrega de torque entre sistemas hexalobulares a 25°, e Swamidass et al. observaram diferenças entre fabricantes [5,8]. Não se deve extrapolar valor obtido com Dynamic TiBase, Nobel ASC ou outro sistema para o Pilar Link Osstem.
Os dados clínicos apoiam o ASC como alternativa a coroas cimentadas e pilares angulados, especialmente quando se deseja retratabilidade. Predominam, porém, séries e coortes de curto/médio prazo. Afrouxamento, desgaste, fratura e descimentação permanecem possíveis. Magnificação, controle de torque, espessuras e documentação CAD são essenciais.
Síntese decisória. Use o aberto quando a correção gera benefício clínico e pode ser executada até 25°, com volume e acesso da chave preservados. Use o cilíndrico quando o eixo já é favorável e a prioridade é simplicidade, área de união e robustez.
11. Limitações
Esta é revisão narrativa, sem protocolo PRISMA ou metanálise. Nomenclatura, bibliotecas e IFUs podem variar por país e versão. Não foram localizados estudos que comparassem especificamente o Pilar Link Tipo B aberto com o cilíndrico, nem estudos independentes identificados do EbonyGold nesse conjunto ASC. Confirme a IFU brasileira vigente e o suporte técnico antes da aplicação.
12. Conclusão
O Pilar Link Tipo B aberto permite canal reto ou angulado em até 25° segundo a documentação analisada e utiliza chave angular hexalobular. O cilíndrico mantém canal axial, chave 1,2 mm e maior superfície potencial de união. A literatura sustenta bons resultados do conceito ASC, mas mostra que torque e fadiga variam entre sistemas. No exocad, o fluxo deve começar pela biblioteca correta, definir a emergência por clique ou arraste, respeitar o limite físico e terminar com verificação de espessura, acesso da chave, CAM, assentamento e torque. A decisão deve ser proteticamente orientada e caso a caso.
Referências
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- Anitua E, Alkhraisat MH, Flores J, et al. Survival and marginal bone loss of dental implants supporting CADCAM angled channel restorations: a split-mouth retrospective study. Eur J Dent. 2020;14:194-199. doi:10.1055/s-0040-1709465.
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- Farré-Berga O, Cercadillo-Ibarguren I, Sánchez-Torres A, Gil FJ, Escuin T, Berástegui E. Torsion resistance of the Ball Head System screw and screwdriver for angled screw channels. J Oral Implantol. 2020;46:365371. doi:10.1563/aaid-joi-D-19-00014.
- Goldberg J, Lee T, Phark JH, Chee W. Removal torque and force to failure of non-axially tightened implant abutment screws. J Prosthet Dent. 2019;121:322-326. doi:10.1016/j.prosdent.2018.02.014.
- Swamidass RS, Kan JYK, Kattadiyil MT, Goodacre CJ, Lozada J. Abutment screw torque changes with straight and angled screw-access channels. J Prosthet Dent. 2021;125:675-681. doi:10.1016/j.prosdent.2020.01.018.
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