Por Thayane Furtado e Felipe Pohlmann
Introdução
A reabilitação de molares superiores com implante imediato exige controle rigoroso de três fatores críticos: preservação das paredes alveolares, obtenção de estabilidade primária adequada e construção previsível do perfil protético. Em regiões posteriores de maxila, frequentemente associadas a osso de menor densidade e anatomia radicular desfavorável, esse equilíbrio se torna ainda mais desafiador.
Quando bem indicada, a exodontia atraumática associada à cirurgia guiada permite reduzir variáveis intraoperatórias, minimizar o colapso do rebordo e manter a relação tridimensional planejada entre implante e futura reabilitação.
No caso apresentado a seguir, a proposta foi conduzir um fluxo completo baseado em princípios biológicos e proteticamente guiado: planejamento reverso no Blue Sky Plan, exodontia minimamente invasiva do dente 26, instalação guiada com sistema OneGuide, implante TS IV SA 4.0 X 10 mm Implacil Osstem, preenchimento do GAP com biomaterial xenógeno A-Oss, condicionamento tecidual imediato com cicatrizador personalizado impresso e finalização digital com coroa monolítica em zircônia sobre pilar Link Tipo B.
Mais do que a sequência técnica em si, o foco deste caso está na integração entre planejamento digital, execução cirúrgica e controle do ambiente biológico — elementos que, quando bem conduzidos, permitem transformar um cenário potencialmente instável em uma reabilitação previsível e reprodutível na prática clínica.

Planejamento reverso e técnica cirúrgica guiada
O caso foi iniciado com planejamento reverso tridimensional no software Blue Sky Plan, no qual a posição da futura coroa foi definida previamente e utilizada como referência para o posicionamento tridimensional do implante. Esse conceito é particularmente crítico em região posterior de maxila, onde limitações anatômicas e baixa densidade óssea aumentam a dependência de um posicionamento proteticamente orientado.

A partir desse planejamento, foi confeccionada a guia cirúrgica e utilizado o sistema OneGuide Implacil Osstem, cuja principal contribuição clínica neste cenário não está apenas na transferência do planejamento, mas na capacidade de reduzir variáveis mecânicas durante a osteotomia.
Diferentemente de sistemas convencionais, o OneGuide trabalha com um protocolo de fresagem otimizado, com menor número de etapas e maior eficiência de corte, o que impacta diretamente na qualidade da interface osso/implante. Na prática, isso se traduz em menor dissipação térmica, menor trauma ósseo e maior preservação da estrutura trabecular — fatores determinantes para a obtenção de estabilidade primária em ossos tipo III e IV.
Outro ponto relevante é o controle tridimensional efetivo durante a fresagem. Em molares superiores, pequenas variações de eixo podem resultar em vestibularização do implante, redução da espessura óssea crítica e comprometimento do envelope protético. O uso do OneGuide permite manter o eixo planejado com alta fidelidade, reduzindo a necessidade de compensações protéticas posteriores, como uso de pilares angulados ou sobrecontorno de coroas.
Além disso, o desenho do sistema, com possibilidade de acesso lateral e melhor gerenciamento do espaço intermaxilar, favorece a execução mesmo em regiões com limitação de abertura bucal — situação frequentemente negligenciada, mas altamente relevante em clínica diária.
Após odontosecção e exodontia atraumática do dente 26, com preservação do septo inter-radicular e das paredes ósseas, a guia foi posicionada e a fresagem conduzida com o kit específico OneGuide. Nesse contexto, a associação entre planejamento reverso e execução guiada não apenas reproduz o plano digital, mas cria condições biológicas mais favoráveis para a etapa subsequente: a obtenção de estabilidade primária adequada para implante imediato.


Instalação do implante TS IV SA 4.0 X 10 mm Implacil Osstem
Seguindo a sequência de fresagem guiada, foi realizada a instalação de um implante TS IV SA 4.0 X 10 mm, respeitando o posicionamento tridimensional definido no planejamento digital.
A escolha foi diretamente determinada pelo cenário clínico: alvéolo fresco em região posterior de maxila, associado a osso tipo III, onde a estabilidade primária é o principal fator crítico para o sucesso do implante imediato.
Nesse contexto, a macrogeometria cônica associada ao desenho de roscas progressivas permite alto travamento mesmo em osso de menor densidade, promovendo compressão lateral controlada e maior contato com as paredes ósseas, mesmo na presença de lacunas.
A estratégia de preparo, com fresagem guiada e subfresagem relativa quando indicada, potencializa esse comportamento, criando condições mecânicas mais favoráveis na osteotomia e aumentando a previsibilidade do travamento inicial.
Neste caso, a estabilidade primária não era apenas desejável, mas determinante, pois o planejamento previa a instalação imediata de um cicatrizador personalizado. Esse condicionamento imediato é fundamental para preservar a arquitetura gengival, manter o contorno das papilas e estabilizar o perfil de emergênciadesde o momento cirúrgico.
Mesmo em região posterior, essa preservação tecidual impacta diretamente no selamento peri-implantar, no controle do espaço biológico e na previsibilidade da fase protética. Sem estabilidade inicial adequada, há risco de colapso tecidual e perda dessa arquitetura, comprometendo o resultado funcional e a adaptação protética.
Do ponto de vista biológico, a superfície SA (sandblasted + acid etched) favorece a adesão sanguínea e a estabilização do coágulo, aumentando a área de contato ósseo e o recrutamento celular. Isso acelera as fases iniciais da osseointegração, permitindo uma transição mais rápida da estabilidade mecânica para estabilidade biológica — fator decisivo em implantes imediatos.
Na prática, a combinação entre macrogeometria e superfície não apenas favorece, mas viabiliza o implante imediato em osso tipo III, reduzindo micromovimentação e aumentando a segurança da fase inicial de cicatrização.
Dessa forma, o TS IV SA atua como elemento ativo na construção da estabilidade do caso, sendo sua indicação baseada em necessidade biomecânica — especialmente quando o objetivo inclui controle tecidual imediato e previsibilidade protética.

Pilar Temporary Regular 4,5 e cicatrizador personalizado impresso
Após a instalação do implante, foi posicionado um pilar Temporary Regular 4,5 Implacil Osstem, utilizado como base para a captura do cicatrizador personalizado impresso.
Neste caso, o componente teve papel estratégico: permitir a união estável entre o implante e o cicatrizador planejado digitalmente, criando uma estrutura provisória precisa, removível e passível de acabamento fora da boca.
Previamente, foi planejado e impresso em 3D um cicatrizador personalizado, desenvolvido para reproduzir o perfil transmucoso desejado desde o momento cirúrgico. O dispositivo apresentava aletas apoiadas nos dentes vizinhos, favorecendo posicionamento preciso, repetível e fiel ao planejamento protético durante a captura com resina flow.
Após essa etapa, o conjunto foi removido para acabamento, refinamento e polimento extrabucal. Esse passo é importante porque permite maior controle das zonas crítica e subcrítica, reduzindo irregularidades, áreas retentivas e possíveis interferências no processo de cicatrização.
Do ponto de vista clínico, essa abordagem permite iniciar o condicionamento tecidual imediatamente, ao invés de deixar a mucosa cicatrizar ao redor de um cicatrizador convencional circular. Com isso, torna-se possível preservar a arquitetura gengival, manter o contorno das papilas e guiar o perfil de emergência desde a instalação do implante.
Dessa forma, opilar Temporary Regular atua como elo entre a estabilidade primária do implante e a construção do tecido mole peri-implantar, permitindo que o planejamento digital seja transferido para a arquitetura gengival já na fase cirúrgica.

Preenchimento do GAP com A-Oss
No implante imediato em molar superior, o GAP peri-implantar não deve ser tratado apenas como um espaço residual. Ele representa uma área crítica para manutenção do volume vestibular, estabilização do coágulo e suporte dos tecidos peri-implantares durante a cicatrização.
Nesse contexto, foi utilizado o A-Oss Small – Implacil Osstem, biomaterial xenógeno bovino anorgânico composto predominantemente por hidroxiapatita natural. Sua estrutura mineral microporosa atua como arcabouço osteocondutor, favorecendo a organização do coágulo e a neoformação óssea a partir das paredes remanescentes.
A escolha da granulometria Small foi especialmente relevante neste caso. Em GAPs estreitos e defeitos peri-implantares delicados, partículas menores permitem melhor acomodação entre a superfície do implante e a parede óssea vestibular, favorecendo preenchimento mais uniforme e estabilidade espacial do enxerto.
Do ponto de vista clínico, o benefício central do A-Oss está na manutenção volumétrica do rebordo, especialmente em áreas onde a perda de suporte vestibular pode comprometer a maturação dos tecidos moles e o desenho do perfil transmucoso. Ou seja, enquanto o cicatrizador personalizado orienta a arquitetura gengival, o A-Oss contribui para sustentar biologicamente o volume que dá suporte a essa arquitetura.
Na prática, estudos mostram que biomateriais bovinos anorgânicos semelhantes apresentam uma estrutura porosa parecida com a do osso natural, o que favorece a entrada de sangue, células e a formação gradual de novo osso (Lee et al., 2014). Além disso, estudos clínicos randomizados com A-Oss demonstraram comportamento volumétrico semelhante ao Bio-Oss em defeitos peri-implantares, sem diferença estatisticamente significativa na contração do volume enxertado e na densidade óssea regenerada após o período de reparo (Lim et al., 2022).
Assim, neste caso, o A-Oss Small não foi utilizado apenas para preencher o GAP, mas para preservar volume, estabilizar o coágulo e oferecer suporte ao condicionamento tecidual imediato, aumentando a consistência biológica do fluxo cirúrgico-protético.


Ajuste final do cicatrizador e controle tecidual
Após o preenchimento do GAP com A-Oss Small, o cicatrizador personalizado foi instalado e ajustado, respeitando as zonas crítica e subcrítica previamente planejadas.
Essa etapa conectou o suporte volumétrico proporcionado pelo biomaterial ao condicionamento dos tecidos moles, permitindo estabilizar a arquitetura gengival, preservar o contorno das papilas e orientar o perfil transmucoso desde o período inicial de cicatrização.
Dessa forma, o condicionamento tecidual precoce deixou de ser uma etapa corretiva futura e passou a fazer parte do próprio planejamento cirúrgico-protético do caso.

Fase protética digital e pilar Link Public Tipo B
Após 120 dias de osseointegração, foi realizado o escaneamento intraoral direto sobre a plataforma do implante com o TS Scan Body, componente responsável por transferir a posição tridimensional do implante para o fluxo CAD/CAM. Essa etapa simplifica a fase protética e aumenta a precisão do desenho digital, especialmente quando a proposta é confeccionar uma restauração definitiva com adaptação previsível.
A reabilitação foi conduzida sobre o pilar Link Public Tipo B – Implacil Osstem, componente híbrido baseado no conceito cimentado e parafusado, semelhante ao racional das bases de titânio, conhecidas como Ti-base ou Base T.
Nesse fluxo, a coroa em zircônia monolítica maquiada é cimentada fora da boca sobre o componente metálico, formando um conjunto único que posteriormente é parafusado ao implante. Essa abordagem reúne a estabilidade biomecânica do titânio na interface com o implante e a resistência, biocompatibilidade e estética da zircônia na porção restauradora.
O principal benefício clínico do pilar Link Public Tipo B é transformar o fluxo digital em uma restauração mais previsível, com melhor controle de adaptação, assentamento e conexão protética.
Por ser um componente integrado às bibliotecas digitais, o Link Public Tipo B favorece o desenho CAD da coroa, reduz ajustes laboratoriais e diminui distorções associadas a etapas analógicas. Além disso, o controle extraoral da cimentação permite melhor acabamento da interface zircônia-metal, reduzindo excesso de cimento e aumentando a segurança clínica.
Em região posterior, a zircônia monolítica maquiada oferece alta resistência mecânica, estabilidade de cor, excelente biocompatibilidade e baixa adesão bacteriana. Quando associada a uma base metálica estável, permite uma restauração parafusada com bom comportamento funcional e maior previsibilidade de manutenção.
Dessa forma, o pilar Link Public Tipo B atua como elo entre o escaneamento digital, o desenho CAD/CAM e a instalação clínica da coroa definitiva, reduzindo etapas, aumentando a produtividade laboratorial e favorecendo uma reabilitação mais segura e reproduzível.


Conclusão
Este caso evidencia como a previsibilidade em implante imediato não depende de uma única decisão, mas da integração inteligente entre planejamento, cirurgia, biomaterial e prótese.
O OneGuide Implacil Osstem teve papel decisivo na transferência fiel do planejamento digital para o campo cirúrgico, permitindo que o implante fosse instalado no septo inter-radicular preservado, exatamente na posição planejada. Em molares superiores, esse controle é determinante, pois o implante precisa aproveitar a área óssea disponível após a exodontia e, ao mesmo tempo, respeitar o eixo protético da futura coroa. Quando o implante é posicionado de forma proteticamente orientada, a emergência da coroa se torna mais natural e o centro de resistência fica melhor distribuído em relação à mesa oclusal, reduzindo compensações protéticas, sobrecontornos e cargas desfavoráveis. Portanto, o ganho não é apenas estético: é biomecânico.
O implante TS IV SA 4.0 X 10 mm foi fundamental para transformar um alvéolo fresco em osso tipo III em um cenário mecanicamente controlável. Sua macrogeometria cônica, associada ao desenho das roscas e à superfície SA, favoreceu alto travamento inicial, condição indispensável para a instalação imediata do cicatrizador personalizado e para a preservação da arquitetura gengival desde o momento cirúrgico.
O A-Oss Small complementou a estratégia ao preencher o GAP peri-implantar com um biomaterial xenógeno osteocondutor de granulometria fina, favorecendo melhor adaptação ao espaço entre o implante e a parede óssea vestibular remanescente.
Sua função foi além do preenchimento do defeito: o material contribuiu para a estabilização do coágulo, manutenção volumétrica do rebordo e suporte biológico ao contorno vestibular durante a cicatrização. Esse ponto é fundamental em implantes imediatos, pois a estabilidade dos tecidos moles depende diretamente da preservação do volume peri-implantar.
Enquanto o cicatrizador personalizado orientou o perfil dos tecidos moles, o A-Oss ajudou a manter a base volumétrica necessária para que essa arquitetura fosse preservada ao longo do reparo. Estudos clínicos randomizados demonstraram comportamento volumétrico semelhante ao Bio-Oss em defeitos peri-implantares, reforçando sua previsibilidade quando o objetivo é manutenção de volume e suporte tecidual (Lim et al., 2022).
Na fase restauradora, o fluxo digital com pilar Link Public Tipo B e zircônia monolítica maquiada permitiu transformar o planejamento inicial em uma restauração definitiva estável, precisa e biologicamente favorável.
Mais do que substituir um molar, este caso mostra o valor de trabalhar com um ecossistema cirúrgico e protético integrado. Quando OneGuide, TS IV SA, A-Oss e Link Tipo B são utilizados dentro de uma sequência clínica bem indicada, o profissional ganha controle, reduz variáveis e aumenta a previsibilidade do resultado final.
Em Implantodontia, previsibilidade não é acaso. É consequência direta da escolha correta dos componentes, do respeito à biologia e da execução precisa de cada etapa.

Referências bibliográficas
1- Lee DSH, Pai Y, Chang S, et al. Physicochemical characterization of InterOss® and Bio-Oss® anorganic bovine bone grafting material for oral surgery: a comparative study. Materials Chemistry and Physics. 2014;146(1-2):99-104.
2- Lim J, Jun SH, Tallarico M, Park JB, Park DH, Hwang KG, Park CJ. A randomized controlled trial of guided bone regeneration for peri implant dehiscence defects with two anorganic bovine bone materials covered by titanium meshes. Materials (Basel). 2022;15(15):5294. doi:10.3390/ma15155294.
3- Pjetursson BE, Thoma D, Jung R, Zwahlen M, Zembic A. A systematic review of the survival and complication rates of implant-supported fixed dental prostheses after a mean observation period of at least 5 years. Clinical Oral Implants Research. 2012;23 Suppl 6:22-38.
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5- Osstem Implant. TSIV Implant System: surgical and prosthetic concept, macrogeometry, SA surface and indications manual. Manufacturer technical documentation.
6- Osstem Implant. OneGuide System: guided surgery workflow, drilling protocol and clinical applications. Manufacturer technical documentation.





