Seleção das Cintas dos Componentes Protéticos

Matéria da semana - Ulisses Dayube

Seleção das Cintas dos Componentes Protéticos

Por Ulisses Dayube

A correta seleção da altura do transmucoso (cinta) dos componentes protéticos representa um dos passos mais importantes para o sucesso biológico, funcional e estético das próteses sobre implantes. Diversos estudos demonstram que a escolha inadequada da altura da cinta protética pode favorecer remodelação óssea marginal, dificuldade de higienização, sobrecontorno protético, aumento do perfil de emergência e maior risco de inflamação peri-implantar (Canullo et al., 2010; Izzetti et al., 2024).

Atualmente, sabe-se que a relação entre profundidade do implante, espessura mucosa e geometria transmucosa possui influência direta sobre a estabilidade dos tecidos peri-implantares. Segundo Linkevicius et al. (2010), tecidos peri-implantares finos apresentam maior tendência à remodelação óssea marginal, especialmente quando não há espaço biológico adequado para acomodação dos tecidos moles. Da mesma forma, Spinato et al. (2019) demonstraram que a altura do transmucoso dos componentes influencia diretamente o estabelecimento da largura biológica peri-implantar, independentemente da espessura vertical da mucosa.

Além disso, Pico et al. (2019) observaram que componentes com maior altura do transmucoso favoreceram melhor estabilidade óssea interproximal em implantes instalados em áreas com mucosa fina. Esses achados reforçam a importância do correto planejamento da posição da plataforma protética em relação à margem gengival.

Com base nesses princípios biológicos e protéticos, propomos uma fórmula clínica prática para auxiliar a seleção da altura da cinta protética utilizando o Túnel Check como referência para mensuração da profundidade da plataforma do implante em relação à margem gengival.

De maneira geral:

Profundidade da plataforma do implante até a margem gengival
− redução de 1 a 2 mm = altura aproximada da cinta protética

Na prática clínica, quando o Tunnel Check demonstra uma profundidade do transmucoso de aproximadamente 4,5 mm, normalmente selecionamos componentes entre 2,5 mm e 3,5 mm de cinta, dependendo da região reabilitada e das necessidades estéticas e funcionais. Na região anterior, onde o controle do perfil de emergência e a estabilidade estética dos tecidos são críticos, recomenda-se reduzir cerca de 2 mm da profundidade medida. Assim, para uma profundidade de 4,5 mm, frequentemente selecionamos componentes com cinta de aproximadamente 2,5 mm. Essa estratégia favorece uma transição protética mais gradual e reduz compressão excessiva dos tecidos peri-implantares, principalmente em biotipos finos. Segundo Izzetti et al. (2024), perfis de emergência excessivamente convexos e componentes inadequadamente posicionados podem aumentar o risco de inflamação peri-implantar e remodelação óssea marginal.

Já na região posterior, onde normalmente há menor exigência estética e maior espessura tecidual, a redução pode ser de aproximadamente 1 mm. Dessa forma, uma profundidade transmucosa de 4,5 mm frequentemente resulta na seleção de componentes com cinta de aproximadamente 3,5 mm. Em muitos casos, a cinta pode inclusive permanecer próxima ao nível da mucosa, especialmente em áreas com arquitetura gengival favorável e amplo espaço protético. Segundo Prpić et al. (2025), a geometria transmucosa dos componentes exerce influência significativa na acomodação dos tecidos peri-implantares e no perfil de emergência protético.

Adicionalmente, Raabe et al. (2026) demonstraram associação entre a geometria transmucosa e a prevalência de doenças peri-implantares, reforçando a importância da correta seleção da altura protética e do desenho do perfil de emergência.

Mais do que uma regra fixa, esse conceito deve ser interpretado como um guia clínico para otimização do perfil de emergência, preservação dos tecidos peri-implantares e melhora da previsibilidade protética. A avaliação individual do biotipo gengival, profundidade de instalação do implante, espaço protético e desenho da futura restauração continua sendo fundamental para a seleção adequada do componente.

Referências Bibliográficas

  1. Canullo, L., Fedele, G. R., Iannello, G., & Jepsen, S. (2010). Platform switching and marginal bone-level alterations: The results of a randomized-controlled trial. Clinical Oral Implants Research, 21(1), 115–121. https://doi.org/10.1111/j.1600-0501.2009.01867.x
  2. Izzetti, R., Cinquini, C., Nisi, M., Covelli, M., Alfonsi, F., & Barone, A. (2024). Influence of prosthetic emergence profile on peri-implant marginal bone stability: A comprehensive review. Bioengineering, 11(1), 44. https://doi.org/10.3390/bioengineering11010044
  3. Linkevicius, T., Alkimavicius, J., Linkevicius, R., Gineviciute, E., & Linkeviciene, L. (2022). Effect of Ti-Base abutment gingival height on maintenance of crestal bone in thick biotype patients: A randomized clinical trial with 1-year follow-up. The International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, 37(2), 320–327. https://doi.org/10.11607/jomi.9353
  4. Linkevicius, T., Apse, P., Grybauskas, S., & Puisys, A. (2010). Influence of thin mucosal tissues on crestal bone stability around implants with platform switching: A 1-year pilot study. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, 68(9), 2272–2277. https://doi.org/10.1016/j.joms.2009.08.018
  5. Pico, A., Martín-Lancharro, P., Caneiro, L., Nóvoa, L., Batalla, P., & Blanco, J. (2019). Influence of abutment height and implant depth position on interproximal peri-implant bone in sites with thin mucosa: A 1-year randomized clinical trial. Clinical Oral Implants Research, 30(7), 595–602. https://doi.org/10.1111/clr.13447
  6. Prpić, V., Katanec, D., et al. (2025). Influence of design parameters on implant abutment dimensions: A scoping review. Biomimetics, 16(9), 342. https://doi.org/10.3390/biomimetics16090342
  7. Raabe, C., Fonseca, M., Chappuis, V., et al. (2026). Association of transmucosal emergence geometry and peri-implant diseases prevalence around bone- and tissue-level implants: A cross-sectional study. Clinical Oral Implants Research. Advance online publication. https://doi.org/10.1111/clr.70131
  8. Spinato, S., Stacchi, C., Lombardi, T., Bernardello, F., Messina, M., & Zaffe, D. (2019). Biological width establishment around dental implants is influenced by abutment height irrespective of vertical mucosal thickness: A cluster randomized controlled trial. Clinical Oral Implants Research, 30(7), 649–659. https://doi.org/10.1111/clr.13450