Reabilitação do tipo PF-1 em zircônia monolítica: como o fluxo digital e o uso do Transfer Scan Multiple Cases e dos Análogos Reversos Digitais podem aumentar a previsibilidade clínica

Matéria da semana - Thayane Furtado

Reabilitação do tipo PF-1 em zircônia monolítica: como o fluxo digital e o uso do Transfer Scan Multiple Cases e dos Análogos Reversos Digitais podem aumentar a previsibilidade clínica

Por Thayane Furtado e Cláudia Brilhante

Introdução

As reabilitações fixas sobre implantes exigem criteriosa integração entre planejamento cirúrgico e protético, manejo adequado dos tecidos peri-implantares e execução precisa das etapas clínicas e laboratoriais, a fim de proporcionar restabelecimento previsível da função, estética, conforto e longevidade. O aumento da exigência estética dos pacientes é cada vez mais presente no dia a dia clínico. Essa realidade não é diferente para os pacientes edêntulos. A busca por próteses que devolvam a função, o conforto, e que se assemelhem a dentição natural é uma exigência crescente.

As próteses fixas PF-1 destacam-se por representarem uma das alternativas reabilitadoras mais próximas da dentição natural atualmente disponíveis para pacientes edêntulos. De acordo com Misch, as próteses fixas implantossuportadas do tipo PF-1 são classificadas como reabilitações que substituem exclusivamente a coroa clínica dos dentes ausentes, preservando os tecidos de suporte (duros e moles) e respeitando os contornos, proporções e perfil de emergência dos dentes naturais.

O presente caso clínico demonstra como a associação entre planejamento protético adequado, o manejo criterioso dos tecidos peri-implantares, fluxo digital e utilização de ferramentas específicas para transferência e captura das informações pode favorecer a obtenção de reabilitações do tipo PF-1 mais naturais e previsíveis.

Descrição do caso

Paciente do sexo masculino procurou atendimento apresentando comprometimento estético e funcional da arcada superior, associado à presença de múltiplos elementos dentários com extensa destruição coronária, restaurações insatisfatórias e necessidade de reabilitação protética ampla. O caso apresentava ainda implantes previamente instalados associados a inadequada transição protética na interface peri-implantar, embora em posições favoráveis para aproveitamento na condução da reabilitação implantossuportada.

Figura 1 – Situação clínica inicial da arcada superior demonstrando comprometimento estético-funcional associado à extensa destruição coronária dos elementos remanescentes, alteração do zênite gengival e colapso oclusal. (A) Vista frontal intraoral em máxima intercuspidação. (B) Vista frontal do sorriso.

Considerando a demanda estética do paciente e a possibilidade de aproveitamento de parte dos implantes previamente instalados, optou-se pela reabilitação por meio de prótese total fixa do tipo PF-1, buscando restabelecer de forma mais harmoniosa a estética branca e rosa, associada à adequada saúde e estabilidade dos tecidos peri-implantares.

Fase inicial

Após avaliação clínica inicial, foi realizado escaneamento intraoral da arcada superior utilizando o scanner Trios 3 (3Shape), comercializado pela Implacil Osstem, com o objetivo de análise e planejamento inicial da reabilitação protética. A partir desse escaneamento, foi confeccionada uma prótese provisória em resina nanohíbrida com carga cerâmica, instalada após remoção das reabilitações provisórias insatisfatórias e adequação clínica inicial do caso, visando restabelecimento estético imediato e condicionamento inicial dos tecidos peri-implantares.

Figura 2 – Escaneamento intraoral inicial demonstrando inflamação dos tecidos peri-implantares e compressão da papila interdental decorrentes de inadequado contorno cervical da reabilitação protética pré-existente, comprometendo a arquitetura gengival e a acomodação tecidual na região peri-implantar.
Figura 3 – Prótese provisória em resina nanohíbrida com carga cerâmica utilizada durante a fase de readequação estética e funcional do caso. A etapa de reabilitação provisória foi fundamental para o condicionamento progressivo dos tecidos peri-implantares e desenvolvimento do perfil de emergência previamente à prótese final.

Fase de readequação

Após período de adaptação clínica e reorganização tecidual, que neste caso foi de aproximadamente 4 meses, incluindo remoção de elementos dentários considerados desfavoráveis ao planejamento protético, foi realizado um novo escaneamento intraoral utilizando o sistema Transfer Scan Multiple Cases da Implacil Osstem. Esses transferentes foram fundamentais para reprodução mais precisa dos tecidos peri-implantares, otimizando sua captura digital e favorecendo o posterior condicionamento tecidual. O escaneamento intraoral de áreas edêntulas extensas sempre foi considerado um desafio na implantodontia digital, uma vez que a redução de referências anatômicas pode dificultar a leitura pelos scanners intraorais e aumentar o potencial de acúmulo de erros durante a união das malhas digitais. Nesse contexto, o sistema Transfer Scan Multiple Cases foi desenvolvido pela Implacil Osstem para otimizar o escaneamento de reabilitações implantossuportada envolvendo áreas edêntulas extensas. O dispositivo é acoplado aos scan bodies posicionados sobre os mini cônicos e apresenta hastes de diferentes dimensões (5, 10 e 15mm) que podem ser adaptadas conforme a necessidade clínica, promovendo continuidade das referências durante o escaneamento. Essa característica facilita a leitura pelos scanners intraorais, favorecendo acurácia da malha digital, otimização do tempo clínico e maior fidelidade do escaneamento obtido.

Figura 4 – Aspecto clínico inicial durante a fase de readequação tecidual, após remoção dos dentes considerados desfavoráveis ao planejamento protético. Observa-se reorganização inicial dos tecidos peri-implantares e manutenção dos implantes previamente instalados para continuidade do planejamento reabilitador.
Figura 5 – Utilização do sistema Transfer Scan Multiple Cases (Implacil Osstem) acoplado aos scan bodies sobre mini cônicos durante a fase de escaneamento intraoral. Os dispositivos promoveram continuidade das referências anatômicas em área edêntula extensa, favorecendo a fidelidade da malha digital e otimizando a leitura pelo scanner. (A) Vista oclusal intraoral. (B) Vista frontal intraoral. (C) Imagem do escaneamento digital obtido após a captura intraoral.

Associado ao escaneamento intraoral com o sistema Transfer Scan Multiple Cases, foi realizado também o escaneamento reverso da prótese provisória utilizando os Análogos Reversos Digitais da Implacil Osstem, parafusados diretamente à prótese previamente instalada. A associação entre o escaneamento intraoral e extraoral permitiu complementação das informações digitais obtidas durante o fluxo digital, aumentando a precisão do procedimento. Essa etapa atuou como uma validação complementar das informações digitais obtidas durante o escaneamento intraoral, favorecendo a acurácia na transferência da posição dos implantes e das relações peri-implantares previamente estabelecidas. Enquanto o escaneamento intraoral possibilitou reprodução das estruturas anatômicas peri-implantares e da posição dos implantes, o escaneamento reverso da prótese provisória permitiu captura mais precisa dos contornos protéticos, superfície interna da prótese e do perfil de emergência desenvolvido durante a fase de condicionamento tecidual. Além disso, essa abordagem contribuiu para manutenção da arquitetura gengival e estabilidade dos tecidos peri-implantares na futura reabilitação definitiva.

Figura 6 – Escaneamento reverso da prótese provisória utilizando os Análogos Reversos Digitais da Implacil Osstem para captura extraoral do posicionamento dos implantes e do perfil de emergência previamente desenvolvido durante a fase de condicionamento tecidual. (A) Prótese provisória com os Análogos Reversos Digitais parafusados. (B) Imagem do escaneamento digital obtido após a captura da prótese provisória com os Análogos Reversos Digitais.

A partir desse escaneamento, foi confeccionada uma nova prótese provisória, utilizada para continuidade do condicionamento dos tecidos peri-implantares e refinamento progressivo do perfil de emergência peri-implantar. Há um consenso na literatura de que a presença de faixa adequada de tecido queratinizado ao redor de implantes (≥2 mm) está associada a melhores parâmetros peri-implantares, incluindo melhores condições de higiene, menor inflamação dos tecidos, maior estabilidade marginal e resultados estéticos mais previsíveis em longo prazo. Nesse contexto, o refinamento progressivo do perfil de emergência por meio das próteses provisórias desempenha papel importante na acomodação e maturação dos tecidos peri-implantares, favorecendo a estabilidade tecidual e integração entre estética rosa e branca para a reabilitação definitiva.

Os contornos naturais dos tecidos gengivais apicais às próteses do tipo PF-1 são um resultado clínico desejável e proporcionam o mais alto grau de estética dental. A obtenção de um perfil de emergência adequado é resultado da integração entre planejamento cirúrgico-protético, execução restauradora e manejo criterioso dos tecidos peri-implantares, especialmente por meio do controle das zonas crítica e subcrítica durante a fase de provisórios. Nesse contexto, o objetivo ideal das reabilitações com próteses do tipo PF-1 é promover integração estética mais natural entre dentes artificiais e tecidos peri-implantares, favorecendo a reprodução de papilas interdentais e contornos teciduais semelhantes aos observados na dentição natural. Dessa forma, a etapa de próteses provisórias assume papel fundamental no condicionamento e maturação dos tecidos peri-implantares previamente à instalação da reabilitação definitiva, e, portanto, não deve ser negligenciada.

Durante a fase de readequação, um dos implantes previamente instalados apresentou evolução desfavorável e foi removido, sem comprometimento da condução do planejamento reabilitador. Mesmo após a remoção do implante, o condicionamento tecidual foi mantido, visando preservação da arquitetura peri-implantar.

Figura 7 – Aspecto clínico final dos tecidos peri-implantares após fase de condicionamento tecidual com próteses provisórias. Observa-se maior organização da arquitetura gengival peri-implantar, com definição mais favorável do perfil de emergência e conformação dos tecidos moles para suporte da reabilitação definitiva do tipo PF-1. (A) Vista oclusal final dos tecidos peri-implantares após o condicionamento progressivo com as próteses provisórias e estabilização tecidual. (B) Vista frontal evidenciando a conformação final dos tecidos moles e formação de papilas, indispensáveis para a transição protética mais favorável e estética mais natural da prótese PF-1.

Fase final

Após a finalização do condicionamento tecidual e estabilização dos tecidos peri-implantares, foi realizado novo escaneamento intraoral utilizando o sistema Transfer Scan Multiple Cases (Implacil Osstem) para obtenção das informações definitivas da arcada a ser reabilitada. Nessa etapa, os tecidos peri-implantares já apresentavam arquitetura mais estável e perfil de emergência previamente desenvolvido durante a fase de provisórios, permitindo captura digital mais previsível para confecção da reabilitação definitiva.

A partir desse escaneamento, foi confeccionada uma prótese implantossuportada definitiva do tipo PF-1 em zircônia monolítica maquiada, parafusada diretamente sobre os mini cônicos, sem utilização de links metálicos intermediários. A escolha pela utilização da zircônia monolítica esteve relacionada às suas propriedades mecânicas favoráveis, estabilidade estética e elevada biocompatibilidade com os tecidos peri-implantares. Além de apresentar adequada resistência mecânica e bons resultados clínicos, a zircônia tem sido associada a menor acúmulo de biofilme e resposta tecidual favorável, contribuindo para manutenção da saúde peri-implantar e estabilidade dos tecidos moles ao redor da reabilitação. As próteses fixas em zircônia têm se tornado cada vez mais populares devido à associação entre propriedades estéticas e funcionais favoráveis, enquanto a evolução dos sistemas CAD/CAM possibilitou melhor adaptação das infraestruturas protéticas, otimização do fluxo laboratorial, redução do tempo clínico-laboratorial e armazenamento permanente dos arquivos digitais. Além disso, materiais restauradores à base de zircônia apresentam melhor comportamento mecânico quando respeitadas espessuras mínimas adequadas da infraestrutura protética, favorecendo estabilidade estrutural e previsibilidade clínica em reabilitações implantossuportadas. Nesse contexto, a possibilidade de confecção de estruturas com menor volume protético e adequada passividade dentro do fluxo digital também favoreceu sua indicação no presente caso clínico.

A prótese definitiva em zircônia monolítica maquiada foi parafusada diretamente sobre mini pilares, sem utilização de link metálico intermediário. A evolução dos sistemas CAD/CAM associada ao desenvolvimento de cerâmicas de alta resistência tem possibilitado comportamento biomecânico favorável e adequada adaptação das estruturas monolíticas sobre implantes, sugerindo potencial clínico favorável para sua utilização direta sobre componentes protéticos em casos criteriosamente planejados. Além de adequada resistência mecânica, essa abordagem permite redução do volume protético, simplificação do fluxo laboratorial e minimização de potenciais falhas adesivas relacionadas à cimentação entre a infraestrutura protética e os dispositivos metálicos intermediários.

Figura 8 – Prótese definitiva do tipo PF-1 confeccionada em zircônia monolítica maquiada, planejada dentro do fluxo digital para aparafusamento direto sobre os mini cônicos, sem utilização de link metálico intermediário. (A) Vista frontal da prótese definitiva evidenciando anatomia, proporções dentárias e caracterização estética. (B) Vista interna da estrutura protética demonstrando os perfis de emergência desenvolvidos para adaptação aos tecidos peri-implantares previamente condicionados durante a fase de provisórios.
Figura 9 – Aspecto clínico final da reabilitação implantossuportada do tipo PF-1 após instalação da prótese definitiva em zircônia monolítica maquiada. (A) Vista intraoral frontal evidenciando integração estética entre a reabilitação protética e os tecidos peri-implantares. (B) Vista aproximada demonstrando adaptação dos perfis de emergência da prótese definitiva aos tecidos previamente condicionados durante a fase de provisórios, favorecendo formação de papilas peri-implantares e transição estética mais natural entre prótese e tecidos moles adjacentes.

Conclusão:

O presente caso clínico demonstrou que a integração entre fluxo digital, manejo adequado dos tecidos peri-implantares e planejamento protético criterioso foi fundamental para obtenção de uma reabilitação implantossuportada do tipo PF-1 com elevada previsibilidade estética e funcional. A utilização do Transfer Scan Multiple Cases e dos Análogos Reversos Digitais da Implacil Osstem possibilitou otimização do tempo clínico, elevada acurácia na transferência digital dos implantes e obtenção de próteses com adaptação passiva mais previsível, além de favorecer captura mais precisa das relações peri-implantares e do desenvolvimento do perfil de emergência protético ao longo do tratamento.

Além disso, a confecção da prótese definitiva em zircônia monolítica maquiada parafusada diretamente sobre mini pilares, sem utilização de link metálico intermediário, mostrou-se uma alternativa viável dentro do fluxo digital contemporâneo, possibilitando adequada integração entre estética branca e rosa, além de permitir uma solução protética mais simplificada, com redução de interfaces protéticas e maior continuidade entre o desenho restaurador e o perfil de emergência peri-implantar. Dessa forma, o presente caso reforça a importância da integração entre planejamento digital, condicionamento tecidual e execução protética para obtenção de resultados mais naturais, funcionais e biologicamente favoráveis em reabilitações implantossuportadas extensas.

Figura 10 – Sequência clínica ilustrando a evolução estética e funcional do caso ao longo do tratamento reabilitador. (A) Condição inicial do paciente. (B) Fase intermediária com utilização de prótese provisória para condicionamento progressivo dos tecidos peri-implantares e restabelecimento estético. (C) Resultado após instalação da prótese definitiva em zircônia monolítica maquiada do tipo PF-1, evidenciando melhora da harmonia do sorriso.

Referências:

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